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“De amor e trevas” e “W”
Por Roseana Murray

No magnífico livro De amor e trevas, Amóz Oz no diz que o bom leitor não confunde o autor com a trama. Nabokov não era pedófilo, nem Dostoiewsky sonhava em matar velhinhas.
Mas o bom leitor lê não só o texto. O bom leitor tem mania de caminhar nas entrelinhas, de ler os objetos , as roupas que as pessoas vestem, as expressões no rosto, o dito e o não dito.
O bom leitor sabe que não existe apenas uma realidade. Que as realidades variam de acordo com a nossa leitura. E que tudo é texto, tudo fala.
A nossa memória interfere diretamente na realidade. Não existe realidade não contaminada por nossas vivências passadas e nossas leituras.
Em Père Goriot, Balzac começa o livro dizendo que o cheiro da pensão já antecipa tudo o que acontecerá.
O bom leitor lê também os cheiros.
Aliás, o mesmo Amós Oz no diz, numa longa entrevista, o quanto é difícil fabricar um cheiro com palavras.
Mas depois de ler o belo W, de Roger Mello, seu primeiro romance, um livro feito de cheiros e texturas e enigmas, onde um homem aprisionado copia mapas, ele mesmo com um mapa tatuado nas costas, livro feito de delírios e sopro, livro metáfora da condição do artista, livro onde somos obrigados a navegar nas entrelinhas, leio Yuval Noah Harari,  Homo Deus, inquietante e demolidor.
Sapiens, o primeiro, é o percurso que trouxe o Homo Sapiens até aqui. Desde as cavernas até hoje, passando por todas as guerras e extermínios de outras espécies, inclusive de outros humanos. O Homo Predador. Somos nós.
Todas as crueldades com o Outro,  com os animais.
O Sapiens é um espelho terrível do que somos.
Nossos dois lados. Luz e sombra. Eros e Tanatos. Construção e Destruição.
E o Homo Deus é um livro que nos fala para onde vamos com toda a ciência e tecnologia. Caminhamos para a imortalidade? Para a construção de um novo humano?

 

Roseana Murray