logo

Saudação do Instituto Estação das Letras
por Jair Ferreira dos Santos

Há muitos anos, num programa infantil numa das televisões brasileiras, havia uma competição entre crianças e aquela que ficou em último lugar foi punida com um prêmio que nenhuma delas queria: uma coleção de livros.

Isto me parece um emblema do destino do livro e da cultura letrada no Brasil, desde o obscurantismo português, até o predomínio das culturas visual e digital, passando pela nossa aversão à leitura.

É nesse contexto que devemos situar a mágica e histórica duração da Estação das Letras ao longo de 21 anos. Produzir escritores, editores, tradutores, críticos e melhores leitores tem sido a sua missão, e nisso a Estação não é apenas uma história de sucesso, é um testemunho de milagre.
Agora, a nossa tradição antiliterária se vê reforçada pelo fato de que estamos no meio de uma revolução tecnológica, especialmente na área do tratamento digital da informação, que vem mudando as formas de produção e transmissão do conhecimento, o que afeta frontalmente a produção e a circulação das Artes, sobretudo da Literatura.

Uma cultura de natureza tecnológica está sendo gestada, mas não vislumbramos sequer aonde essa mutação vai dar. Minha crença é que partes da cultura letrada deverão sobreviver, como o livro impresso sobreviveu até agora ao e-book, que parece estacionário. E o que é que o corpo docente da Estação das Letras tem a ver com isto?

Tem a ver, em suas várias implicações, com o seguinte: se olhamos para as maquinas maravilhosas de processamento de texto, entre elas os scanners, podemos observar que  escaneamos o significante, a página impressa, mas não escaneamos o significado.

Isto, o significado, é prerrogativa da consciência humana doadora de sentido, e eu diria que os professores da Estação, como a própria literatura, trabalham exatamente no espaço da não-escaneabilidade do significado, que corresponde ao aspecto humano, social da Literatura e de todos aqueles elementos ligados a ela: escritores, atores, tradutores, críticos, editores, livreiros, leitores. Pois essa não-escaneabilidade tem ainda um outro nome, chama-se “liberdade”.

Assim, nosso trabalho é precisamente uma “prática do despertar”, o que significa viabilizar os talentos individuais, e por aí a Estação é um foco de criação e reflexão literárias, fazendo, basicamente, com que surjam novos autores, aqueles que ampliam o real com Mundos Possíveis, pois este é, me parece, o papel da Literatura. Mundos possíveis, além do real, para enriquecer de significados a nossa existência.

Concretamente, nosso trabalho consiste em aprimorar nos alunos a capacidade de escolha dos significantes adequados para os significados mais diversos e, inversamente, dar aos significados mais obscuros os significantes de uma transparência inquestionável.

A Estação, portanto, mantém viva a chama da criação verbal numa época que tende ao predomínio da hiperprosa informática, cujo ideal é o império absoluto da denotação e a ausência, também absoluta, da conotação.

Nosso trabalho, o dos professores, é a meu ver comparável ao do artesão, porque exige dedicação, sensibilidade, paciência, conhecimento, atualidade, memória, simplicidade face ao complexo psicodrama que é uma oficina literária.

O que está em jogo ali é a defesa do caráter fundador, primordial da linguagem humana e de toda as suas virtualidades artísticas, afetivas, pragmáticas vinculadas à existência e à cidadania. Não me parece pouca coisa.

Eu soube que a carreira da Estação das Letras está chegando ao fim. Vamos dar à sua história vitoriosa, na pessoa da Suzana Vargas e amigos, funcionários e colaboradores que a tocaram até aqui, todas as glórias e todas as graças que ela merece, e vamos desejar longa vida ao seu sucessor, o nascente Instituto Estação das Letras.

Obrigado.

Jair Ferreira dos Santos