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Aula de Literatura em tempos de internet
Cesar Garcia Lima O Quinze

Bom dia! Tudo bem com vocês? Leram o texto que eu passei na aula passada?

Comecei assim muitas aulas de literatura nos cursos de Letras em universidades públicas no Rio de Janeiro, mais precisamente na UERJ e na UFF. A resposta dos alunos, em geral, foi um vago aceno de cabeça, entre o sim e o não. A maioria, quase sempre, não tinha lido o texto indicado, com desculpas várias que iam desde doença, falta de tempo ou, o que é pior, apenas desinteresse. Por que alunos de Letras (e também Jornalismo e Cinema, onde dei aulas) leem pouco permanece um mistério para mim, ainda que reconheça que, dependendo da disciplina, o interesse pelo texto possa ser maior. Também já fui surpreendido por muitos leitores atentos em sala de aula, que não só leem os textos indicados como fazem perguntas questionadoras, descobrindo ângulos inusitados para os temas abordados.

Desde o final dos anos 1990, com a popularização da internet, o acesso a conteúdo digital se mostrou um recurso de muita utilidade para professores e estudantes, mas também bastante enganoso, sobretudo para quem se deixa (ou deixava) levar pelo aparente comprometimento de muitos sites que parecem sérios e na verdade apenas reciclam sem critério informações de outras fontes. Esse tipo de “saber requentado” talvez pudesse ser chamado hoje de antecedente da pós-verdade, quando o que mais importante é a veemência do que a fidelidade aos fatos.

Nesse período de ascensão da cultura digital, a possibilidade de encontrar um texto raro na internet era um alento para ilustrar uma preparação de aula, ainda que a falta de mecanismos de busca abrangentes tornasse a tarefa uma garimpagem bastante aleatória. Nada que se compare aos segundos que cada um gasta hoje no Google, Bing, Yahoo ou mesmo fora desses mecanismos de busca, nos sites de universidades, museus, fundações e institutos de pesquisa, entre milhões de outros. No que se refere aos alunos, ceder à cópia foi uma tentação para os mais preguiçosos, que se deixavam levar pelo primeiro site que surgia na tela. Infelizmente, lidar com o plagiarismo passou a ser também um desafio para o professor, que vê o objetivo de seu trabalho atravessado por essa espécie de contrabando do saber.

Com o passar dos anos, já no século XXI, a expansão do acesso à internet, principalmente por meio de smartphones, criou um fosso entre os recursos possíveis de um professor de universidade pública e as novidades tecnológicas. Em geral restrito ao chamado “cuspe e giz”, ou seja, sua própria fala e as anotações que faz no quadro, o professor foi de alguma maneira relegado a uma desatualização involuntária: como competir com sites que despejam informação instantânea depois de uma busca rápida? Até o formato de palco italiano em que atua o professor, frente a uma plateia nem sempre atenta, permanece em reformulação.

Desde muito cedo fui influenciado pela leitura, que me levou a interesses como a própria literatura, o jornalismo e o cinema. Ler de tudo um pouco na infância me motivou a conhecer universos que me surpreenderam e aguçaram ainda mais minha curiosidade. Ao ganhar livros de presente, era, mesmo que indiretamente, convocado a opinar sobre eles, o que certamente influenciou minhas escolhas profissionais. A professora Laélia Rodrigues que, no quarto ano primário feito em Rio Branco, Acre, onde nasci, leu para a classe As aventuras de Tibicuera, de Érico Veríssimo, ganhou minha admiração eterna. Lembro até hoje que mal podia esperar pelo dia de leitura e a ideia de compartilhar um texto diretamente com as pessoas me motiva mesmo nesta época de postagens digitais.

Uma boa notícia no que se refere à leitura e escrita, aliás, é a recente formação do Instituto Estação das Letras, no Rio de Janeiro, liderado pela professora Suzana Vargas. A Estação das Letras é um polo de cursos e oficinas que acaba de comemorar 21 anos, com sede no bairro do Flamengo, no Rio de Janeiro. Com o intuito de ampliar suas atividades e atingir mais pessoas e – justamente – incentivar a leitura, a Estação funciona agora como Instituto e anuncia para breve uma série de atividades que inclui além dos cursos e eventos levar a leitura para locais “esquecidos” como hospitais e orfanatos. Em tempos de citações inventadas como as que fazem de Clarice Lispector e Caio Fernando Abreu, entre outros, isso é um alento para quem gosta de escrever, ouvir ou ler com critério.

Por falar em critério, é um alívio encontrar um site português que, em sua página sobre Escrita, tem como especialidade, justamente, divulgar com exatidão citações de autores famosos (http://www.citador.pt/frases/citacoes/t/escrita).

Profissionalmente ou não, na verdade, estamos sempre lendo o mundo e o interpretando à nossa maneira, com muito ou pouco rigor. Seja na sala de aula, no acesso ao site espirituoso ou nas redes sociais, o fluxo de literatura que chega até nós diariamente é incessante. Quanto a interpretação de texto, bem, isso é outra história…

Publicado original aqui.